Predestinados ao inferno

Tive meu primeiro contato com uma sociedade muçulmana aos 22 anos de idade, quando passei uma semana no Marrocos. Logicamente, o modo de vida característico daquele país, a culinária e as belas paisagens me fascinaram, contudo, um outro fator me chamou muito a atenção.
Eu cresci dentro de uma comunidade evangélica, o que fez a minha infância e adolescência serem de muita dedicação à religião cristã. Além disso, a visão neo-pentencostal na qual eu me desenvolvi propunha um foco muito forte em missões, ou seja, eu adorava pregar o Cristianismo. Para tanto, eu participava de campanhas de evangelismo em escolas, praças, casas de recuperação, bairros afastados e até para outros estados do Brasil eu viajei para fazer missões.
O grande motivador desse fervor em divulgar o Cristianismo vinha, pelo menos para mim, do Evangelho de Marcos (cap 16, vers 15-16), que diz: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”. Isto é, estava claro para mim: Eu deveria falar de Jesus para as pessoas, porque se não, elas iriam para o inferno. Simples assim.

          Voltemos então ao Marrocos.
Uma vez no país, eu quis observar aquele novo mundo que se abria diante dos meus olhos, tudo era diferente, tudo era exótico. Eu quis portanto entender como a sociedade funcionava, como as relações aconteciam e, com certeza, hoje eu me dou conta do quão ignorante eu era em relação ao Islã, pois minha visão se constatou altamente preconceituosa e superficial em relação a essa religião. Eu confesso que nem aprendi tanto assim naquela única semana, mas seguramente aquela experiência despertou em mim uma curiosidade enorme em conhecer melhor esse novo mundo.



Uma lembrança forte que tenho é do dia que fui visitar a Mesquita Hassan II de Casablanca, a qual, se não me engano, era a maior do mundo naquela época. Recordo-me que o tempo estava meio nublado, mas que mesmo assim pude contemplar de boca aberta aquela maravilha arquitetônica. O templo era enorme e fora construído a beira-mar, o que a tornava ainda mais fascinante; o seu interior era ainda mais deslumbrante, com uma riqueza de detalhes que jamais havia visto. Eu fiquei em estado de transe contemplando um templo islâmico pela primeira vez em minha vida.
Além da mesquita em si, lembro-me que no saguão de entrada havia uma professora e seus aproximadamente 15 alunos (chutaria que tinham por volta de uns 6 anos de idade) se preparando para também entrar no templo. Todos estavam devidamente enfileirados e aparentemente muito felizes com o passeio escolar que estavam para fazer. Além disso, todas as crianças estavam com suas vestimentas típicas, o que incluía as meninas e seus véus.
Ao observar aquelas crianças, pensei na minha própria infância e, portanto, no Cristianismo que eu professava. Lembrei-me também de Marcos 16 e da minha obrigação em pregar o Evangelho; e foi então que uma pergunta me veio à mente: Tendo em vista que essas crianças nasceram nesta cultura, vão crescer estudando o Islã e viver sempre imersas nesta sociedade tão contrastante com a minha, qual as chances delas um dia se tornarem cristãs e irem para o céu? 
Eu sei que alguns de vocês argumentarão: “Mas é aí que entram as missões, ou seja, cristãos devem de fato ir a estes lugares e divulgar a palavra de Jesus Cristo”. Bem, este pensando me parece muito perigoso por dois motivos: o primeiro me remete às Cruzadas e todas as guerra colonizadoras na história da humanidade, e eu não pretendo abordar esse assunto aqui. O segundo, porém, é o cerne deste texto e cujo argumentação vou explorar com números.

Imagine você, nascido em um país de esmagadora maioria cristã, sua família te criou dentro de um lar amoroso e com frequentes idas à igreja desde o seu nascimento. Pois bem, qual a probabilidade de você cumprir as exigências da salvação descritas em Marcos 16? Eu vou dar a você uma margem e estabelecer 90% de chances.
Agora, no contraponto, imagine um jovem da sua idade que também nasceu em uma família muito amorosa e extremamente religiosa, só que no Marrocos. Qual a probabilidade deste rapaz ser salvo? (Lembrando que, pelos valores ocidentais, ele teria que se converter ao cristianismo). Ora, para efeitos de nivelamento, eu darei a ele 10% de chances - lembrando também que o Marrocos é um dos países islâmicos mais liberais do mundo, se fosse Arábia Saudita por exemplo, eu talvez chegaria a quase 0%.
Com estas estatísticas, de maneira conservadora eu diria, postas na mesa (90 e 10), eu concluo levantando as seguintes questões: Por que ir para o céu é uma tarefa muito mais fácil para você do que para o jovem marroquino? Que justiça é essa que Deus determinou e que privilegiou você? Que fila errada é essa que esse rapaz entrou e que o condenou para uma eternidade de lágrimas e ranger de dentes lá nas profundezas do inferno?
Portanto, estariam então aquelas crianças condenadas ao inferno já nos seus nascimentos? Estaria toda aquela sociedade destinada às trevas? E o que dizer de hindus? Judeus? Ateus? Budistas? Católicos? (sim, pasmem, mas para o evengélico radical, nem os católicos se salvam). Que Deus é esse que condenaria quase toda a raça humana a viver no castigo eterno e longe da sua gloriosa presença?

Esses questionamentos me assombraram profundamente por um bom tempo.

Após este evento, muitas outras perguntas surgiram na minha cabeça e, de repente, toda aquela lógica binária de céu e inferno, bem e mal, certo e errado, simplesmente não fazia mais sentido nenhum dentro de mim.
Muita coisa mudou de lá pra cá, mas isso será assunto para um próximo texto.

Weber Amaral

  • Clique aqui para seguir o roteiro de leitura dos textos do Dislexia Visual sugerido pelo autor.

Comentários

  1. Adoro as perspectivas que você traz para tocar num assunto que pode ser muito delicado! E é por isso que eu sou uma defensora de viagens como canais de expansão da nossa mente. Muito bom!

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    1. Oi Lóris
      Quem viaja tem história pra contar né?
      Me lembrei das palavras da palestrante no curso que a minha universidade ministrou para nós que estávamos indo para intercâmbio: "Vocês são agentes da paz mundial".
      Lembro-me que achei meio forçado isso, mas depois entendi o conceito que ela quis passar pra gente.
      Aliás, isso me dá ideias para um novo texto.
      Obrigado pelo comentário.

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  2. Olá Binho belo texto com excelente reflexão de um ponto de vista peculiar em suas várias experiências e percepção .. as pessoas precisam mesmo saber que uma coisa é DEUS.unico Universal .Unipresente. e outra suas culturas Religião e Dogmas.. .

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    1. Olá Anônimo - que eu não sei qm é :-(
      A religião é parte integrante da cultura de cada país ou tribo. Monoteísmo não é um conceito unanimo em muitos lugares.
      Mas o principal ponto é que cada pessoa também é única, e as crenças divergem de maneira absurda.
      Por isso você está certo, tolerância é tudo.
      Abraços.

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  3. Nunca fui referência religiosa. Pela primeira vez, li recentemente um livro religioso "Anjos à nossa volta" de Anthony De Stefano. Tem me ajudado muito a entender nossa missão espiritual neste mundo, e o que nos aguarda pós vida. Uma vez eu fiz uma pergunta parecida sobre essa dúvida sobre o Islã, e alguém de CP me falou que estavam condenadas. Bom, você me conhece e sabe que achei errado. Por isso eu digo: essa viagem foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida e sou grato por ela ter acontecido. Gosto da forma que expõe as coisas. Congratulations!!

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    1. Ounnn... que bonitinho. Também concordo que essa viagem mudou bastante a pessoa que eu sou. E continuo mudando.... to ficando velho, ranzinza, cheio de manias, mas alguns pontos aqui e ali vão melhorando.
      Beijos....

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  4. Adorei sua reflexão Binho! Também abri minha mente depois de visitar Abu Dhabi durante o Ramadã. Além de ter sido bem recebida, também fui educada na razão por trás de algumas tradições como o jejum, o véu, os presentes... e voluntariamente me adaptei as regras do local durante minha estadia por lá. Nessa discussão entre diferentes crenças acho um pouco demais dizer que existe um Deus único porque isso tende a negar as diferenças que sim existem entre religiões. É como no plano cultural/racial dizer que somos todos iguais... Ninguém voltou da morte pra dizer como é por lá, se existe um Deus e se para ele faz diferença sua religião. Penso que se as religiões se preocupassem mais com a vida ANTES da morte em vez de depois, talvez pudéssemos ser mais responsáveis por fazer do mundo um lugar mais tolerante.

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    1. Mas você é muito sofisticada mesmo, né? Abu Dhabi... hehe
      Fiquei aqui pensando sobre esse teu ponto de um único Deus e tal. A igreja que eu participava sempre condenou o ecumenismo, assim como vc disse... mas fico pensando se a convergencia entre duas religiões distintas não poderia trazer paz. Mas, se bem que daí tbm podem surgir grupos fundamentalistas né?
      Não sei, tenho mixed feelings sobre isso... fala pro Mano trazer a cachaça que nós reflete sobre isso aí.. :-p

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    2. Opa Binho, quando posso levar a cachaça pra reflexao? :)

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    3. Sempre bom refletir com amigos (e com álcool). Assim que sarar da gripe que nos pegou a todos de jeito :-p.

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  5. Leandro Mascarenhas Fernande17 de fevereiro de 2020 18:41

    Weber, adorei a reflexão, sem muitas digressões :). Também fui religioso há certo tempo, hoje já nāo me prendo mais a nenhum dogma. Grande abraço, parabéns pela iniciativa e continue firme nas narrativas!

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    1. Você não gosta muito de digressões né?
      Abraços meu querido e valeu pelo apoio.

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  6. É isso! Deus, o divino, o bem, a salvação, o eterno, não são propriedade do cristianismo.

    A espiritualidade é vivida por cada um da maneira que Deus preparou pra elas...pra alguns numa igreja evangélica, pra outros no espiritismo, pra outros no islã...ou até praquele q não congrega mas o vive bem no dia-a-dia.

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    1. Obrigado Mari plo comentário.
      Concordo com você que faz parte do senso comum a religião dominante naquela sociedade se apropriar de conceitos que não são "divinos"e sim humanos, tais como o amor ao próximo, e a dita bondade.
      no fim, eu acho que temos muito mais semelhanças que diferenças e se criarmos pontes ao invés de abismos entre nós, vamos aprender mais uns com os outros e, por consequencia, nos tornarmos pessoas melhores.
      Abraços

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