A (in)justiça divina

Vou contar uma história agora que vai ilustrar de forma bem clara algo que eu já contei por aqui sobre a Marida: que ela é uma pessoa que sabe apreciar a mais fina cultura, mas que, ao mesmo tempo, também adora as simplicidades e, por que não dizer, as futilidades da vida. 

            Dias atrás, já durante a quarentena, ela abriu o seu aplicativo no celular e começou a fazer as suas aulas diárias de francês. Neste momento eu resolvi ir para o banho. Quando voltei, ela já havia acabado sua lição cotidiana e estava sentada no sofá, toda concentrada na leitura do livro Sapiens, de Yuval Harrari. Resolvi, então, não fazer grandes barulhos e comecei a lavar a louça. Ela, ao terminar o capítulo, deu uma pausa na leitura, aproximou-se de mim e começou a me contar suas descobertas sobre a história da civilização humana extraídas daquele mesmo livro. Ela estava toda empolgada com tudo que havia lido até então e me descrevia tudo de forma bem apaixonante. Contudo, no meio de uma de suas explicações de como o homem primitivo se destacou das demais espécies de primatas, ela parou repentinamente e disse:

            “Meu Deus, vai começar o Big Brother. Hoje tem prova do líder!”

            Ela então subitamente deixou o livro e a explicação de lado, ligou a televisão e foi assistir ao reality show.

            Enquanto ela assistia ao programa, eu terminei a louça, enchi um potinho com amendoins salgados para nós dois e me sentei ao seu lado, mas sem prestar muita atenção na tão esperada prova do líder. Comecei a ler algumas notícias no celular, porém logo passei para as redes sociais, mas, mesmo assim, uma vez ou outra checava o que acontecia na competição que estava sendo televisionada. Após um tempo, eu deixei o celular de lado e também fiquei acompanhando o que estava acontecendo na prova, a qual foi vencida por uma das participantes.

            Até aí tudo normal, alguém deveria de fato ganhar a prova. Porém, o que me chamou a atenção foi a emoção que aquela mulher expressou com a sua vitória. Ela correu para todos os lados do jardim da casa, chorou, bradou, abraçou os demais companheiros de confinamento e tudo mais, ou seja, estava realmente eufórica com sua conquista. Contudo, no fim, algo me chamou ainda mais a atenção: ela se jogou no chão e gritou a seguinte frase por três vezes:

            “Nunca foi sorte, sempre foi Deus!”


Em sua composição de 1992, A canção do senhor da guerra, Renato Russo fala da ilusão traumática de jovens que são levados à guerras criadas por burocratas e governantes. Também mostra o trágico fim de soldados que, na realidade, perdem a sua vida em troca de guerras totalmente sem sentido. De forma genial, ele termina a canção com o seguinte verso: "E lembre-se sempre que Deus está do lado de quem vai vencer!".

Assim como a participante do BBB, os soldados que são levados a uma guerra sem sentido, ou se você prestar atenção em uma entrevista de um jogador de futebol logo após uma partida, você vai sempre notar esse discurso de justiça divina e de propósito maior naquilo que está sendo feito.


Bem, certamente eu tenho várias críticas à religião que um dia foi a minha realidade, mas eu jamais negaria o quão importante e decisiva ela foi na construção da minha identidade enquanto ser humano. Ou seja, o cristianismo protestante neopentecostal é sim parte de quem eu sou hoje e provavelmente seguirá comigo até o fim. 

Tendo isso como base, gostaria de analisar aqui um dos termos mais ouvidos em igrejas e nos círculos religiosos, e que tem a ver com os casos descritos acima: “Deus é justo”.

Em seu momento de extrema euforia, a participante do programa apregoou essa máxima religiosa que se fundamenta no conceito de que Deus controla cada detalhe das nossas vidas e, além disso, aplica sua justiça sobre cada acontecimento da nossa existência. Ou seja, a frase “Deus é justo” é utilizada em muitos contextos e, até certo ponto, de maneira extremamente banal. 

A pessoa que proclama que Deus é justo, provavelmente o faz em duas situações: 

1.      A partir de uma benção ao seu favor ou, infelizmente, 

2.      Diante uma desgraça que aconteceu a outra pessoa. 

Desta forma, aqui cabe o questionamento que, se Deus é justo, é justo para quem? Veja bem, a justiça divina não deveria ter o julgamento humano, pois isso simplesmente não faz o menor sentido. 

Por exemplo, na história da humanidade muitas pessoas (especialmente mulheres) foram queimadas, apedrejadas em praça pública, chicoteadas e etc, e a alegação dos executores sempre teve base na tal justiça divina. Contudo, seria aquela uma sentença divina ou dos homens? Da mesma forma eu, enquanto humano, jamais poderia afirmar que já vi a justiça divina. Não, jamais a vi! E creio que se tivesse visto, tão pouco a reconheceria, porque eu só sei julgar a partir do espectro humano.

scales of justice png - Transparent Scales Gold - Balança Da ...

 

Então, caso encerrado, não existe a tal justiça divina!

Calma lá… temos mais a conversar sobre esse assunto ainda.

 

Mesmo se você, por si mesmo, chegar à conclusão de que não existe uma lei maior que rege todo o universo, nós, enquanto humanos, adoramos pensar como Deus e imaginar sim que existe a justiça divina e que ela controla desde o mínimo cair de uma folha até um dilúvio que destroi todo o planeta. E que, no fim, tudo se equilibra.

Porém, o pensamento moderno não prega este tal equilíbrio, uma vez que isso implicaria em ganhos e perdas para cada indivíduo. Contudo, na realidade, o homem contemporâneo médio tende a achar que tudo se equilibra, mas se equilibra ao favor dele próprio - lembre-se dos itens 1 e 2 acima e de como a participante do BBB achou que a vitória dela era, de fato, uma provisão divina.

O texto bíblico localizado em Romanos 8:28, o qual diz que “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. elucida bem a visão deturpada de cristãos a respeito do que seria a justiça divina, a qual existiria somente para benefício próprio. Além disso, a bíblia também está repleta de maledicências a povos distintos ou, até mesmo, a pessoas que não praticavam a mesma fé do “povo escolhido” - como exemplo, leia o livro dos Salmos, no capítulo 109, e você vai notar que os versos criados por Reanto Russo fazem alusão à ideia de que a causa de um povo sair vitorioso sobre o outro.na guerra será sempre a justiça divina.

 

Portanto, não consigo imaginar algo mais reconfortante (para não dizer mimado) do que vislumbrar uma balança que equilibra toda a minha existência e, desta forma, me enxergar como o centro do universo. Porém, quando deixamos o egocentrismo de lado, e nos damos conta da insignificância da nossa própria existência, é que entendemos que não, não existe a tal justiça divina que controla o simples cair de uma folha de árvore em detrimento do equilíbrio do nosso pequeno mundo.

 

Weber Amaral

           

Notas:

  • Eu leio e respondo a todos os comentários feitos aqui no blog. Portanto, você pode voltar e lê-los depois de alguns dias, ou clicar em Notifique-me, para receber as respostas em seu e-mail.
  • Clique aqui para seguir o roteiro de leitura dos textos do Dislexia Visual sugerido pelo autor.

Comentários

  1. Binho, excelente introdução ao tópico. Essa “justiça” divina machuca muita gente

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    1. Pois é Gandhi.... machuca muita gente mesmo.
      E o que mais complica é que cada um define oq a "justiça divina" é.. segundo o seus próprios interesses e preconceitos.
      Abraços.

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  2. Nossa Binho, essa bola que você levantou é tão importante! Se observarmos os movimentos políticos e culturais do momento, se analisarmos o racismo estrutural, quantas injustiças se sustentaram a partir de uma crença na “justiça-divina” que favorece os que estão no poder. A fala da moça no BBB está invertida, muitas vezes não é Deus mas sim sorte! Mas sim privilégios! Mas sim seu esforço e de outros que te ajudaram no caminho! Tantas contingências apelidadas de “justiça divina”. Entendo o efeito consolador que o amparo paterno (simbolizado na lei do cara da lá de cima) oferece, amparo inclusive necessário para alguns conseguirem suportar o sem-sentido da morte, da perda, da violência. Mas vamos pensar... “Nada acontece por acaso” - sério mesmo? Eu, vc, o governo, nossas decisões, não temos nada a ver (ou responder) pelo que acontece? E quando coisas ruins acontecem pra gente “boa” e coisas boas acontecem pra gente “ruim”? Uma espécie de “Vc se torna automaticamente culpável por aquilo que te acomete”? É o melô do neurótico no samba do narcisista.
    Concordo contigo que usar o argumento da lei divina (assim como da meritocracia quando isoladamente) pode se converter em uma arma de opressão contra os demais e pior, levar a uma experiência religiosa cínica e infantilizada. Haja reflexão!!

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    1. Então, acho que existe a opressão com a desculpa de ser "justiça divina" e também, também como vc falou, acreditar que tudo é carma (ou justiça divina) também me exige da responsabilidade pelos meus atos.
      Existe esse paradoxo de nada é minha culpa, mas também tudo é minha culpa... entende? A gente precisa encontrar esse equilíbrio nos nossos conceitos.
      Ou seja, temos que reconhecer o nosso mérito (ou responsabilidade) e também reconhecer o nosso privilégio (ou má sorte)...
      Abraços e obrigado por me fazer refletir mais ...

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  3. Tio Binho, muito boas as referencias rebuscadas que voce utilizou neste texto. Ta ficando profissional o negocio! Vou ate reler algumas das letras pq apesar de lembrar das musicas nao consigo interpretar o texto cantando. hahahahah

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    1. hehe.. falta bastante pra ficar profissional. Mas quem sabe um dia eu chego lá.
      Cara, o RR era muito bom.. vc pode até contestar o músico, mas o poeta era sim muito bom.
      Abraços Mano

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    2. “I tremble for my country when I remember that God is just and that his justice cannot sleep forever“ Thomas Jefferson

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    3. Que bonito... e que tenso.
      Mas é bem isso mesmo. Apesar que, se analisarmos pela ótima lógica.. chegamos a lugar nenhum mesmo.
      Abraços mano

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