Conserto ou concerto?

Para que possamos refletir um pouco sobre um assunto que julgo importante nos nossos dias atuais, vou propor o seguinte cenário hipotético.

Imagine que você está em sua casa apreciando um belo domingo de extremo ócio e seu telefone toca. Você, então, nota que se trata do seu grande amigo Bruno. Você atende ao telefone com a sua habitual irreverência, mas logo nota que ele não está tão contente assim e, que ao contrário, está ofegante e pergunta se pode passar na sua casa para conversarem. . Ao chegar, você já preocupado quer saber o motivo do seu desespero. Você lhe oferece, então, um copo d’água e pede para que se sente no sofá a fim de se acalmar um pouco. Sua respiração começa avoltar ao normal e ele, que é afro-descendente, lhe conta que estava caminhandona rua quando quatro homens começaram a perseguí-lo e chamaá-lo de terríveis nomes que faziam alusão à sua cor de pele. ele volta a ficar nervoso enquanto  conta que conseguiu despistar os homens e correr então para a sua casa. Além disso, ele descreve o medo que sentiu e a revolta que existe dentro de si por ser perseguido simplesmente por sua cor de pele.

Portanto, como bom amigo que é, você simplesmente oferece um abraço ao Bruno e compartilha toda a sua revolta para com esta sociedade racista que todos nós vivemos. Por fim, por ser religioso, você termina a conversa dizendo:

“Estou orando por você meu amigo, tudo vai ficar bem!”

E vocês terminam o domingo conversando sobre a vida e outras coisas.

 

Excluindo o fato revoltante do nosso amigo hipotético Bruno ter sofrido uma perseguição racial em pleno século XXI (o que não é algo Tão incomum de se pensar em nossa sociedade atual), você agiu muito bem ao lhe acolher em sua casa. Além disso, independentemente da religião (ou falta de) do Bruno, a frase final também é muito válida, pois demonstra que você reconhece o quão difícil é a situação do seu amigo e também que você  tem carinho e empatia para com ele.

Entretanto,  imagine agora um cenário hipotético e paralelo no qual trocamos a sua última frase por: “Estou orando por você meu amigo, tenho certeza que Deus vai fazer um milagre na sua vida e você vai acordar branco qualquer dia desses. tudo vai ficar bem!”

 

A princípio você pode estar achando essa segunda história hipotética muito absurda, pois ninguém pediria a Deus para que ele mudasse a cor da pele de uma pessoa por ser leniente com uma sociedade preconceituosa como um todo. No entanto, muitas vezes, é exatamente isso que acontece com os deficientes. 

Assim como contei no artigo O capacitismo na religião, o senso comum dentro de igrejas e cultos prenuncia que, ao se ver um deficiente deve-se örar pela sua cura”, afinal é exatamente isso que se busca em uma religião. Ou seja, não há uma tentativa em direção a entender e acolher aquele ser humano. Dessa forma ao invés de tentar coletivamente mudar o comportamento preconceituoso e doentio da sociedade na qual todos nós vivemos, o ideal fanático religioso teima e insiste em mudar a pessoa com deficiência.

Existem muitas reflexões que podemos fazer sobre esse comportamento coletivo de “negar a realidade”e marginalizar aqueles que não se encaixam no ideal normativo, porém eu preciso fazer uma pausa e dizer que eu bem sei que comparar diferentes tipos de preconceitos sociais é desumano e jamais deveria ser feito. eu entendo a questão das populações de origem africana (principalmente no continente americano), sei de toda a história que envolve este assunto e também reconheço que por séculos pessoas foram privadas de sua liberdade e brutalmente oprimidas simplesmente por sua cor de pele. Por isso devemos todos reconhecer o pesado legado histórico deste assunto.

Entretanto, apesar de  não ser meu local de fala, há que se dizer que a diferença entre populações negras e as demais é um assunto puramente social e cultural, isto é, a única distinção física que existe é visual. em contra partida o deficiente tem sim uma barreira natural que nos bloqueia de uma socialização dentro do padrão normativo, barreira esta que não pode ser jamais ignorada (não que as distinções sociais do racismo devam ser)..

Para ilustrar o caso acima, pense que um deficiente auditivo somente poderá se comunicar com alguém que esteja disposto e treinado para usar linguagem de sinais ou que escreva tudo aquilo que estiver sendo conversado. Do mesmo modo, um cadeirante somente poderá chegar a um encontro com amigos se o local for acessível para ele. E, por fim, uma pessoa cega somente se sentirá incluída em um meio no qual tudo possa lhe ser descrito com palavras.

Dessa forma esta marginalização religiosa é sim muito cruel para o deficiente, principalmente pelo fato de lhe gerar culpa (assunto tratado no outro texto). contudo, mais que isso, sugerir que um deficiente deva ser “consertado” denota a sua não aceitação a ele ou a ela, ou seja, implica dizer que você nao reconhece aquele indivíduo como um ser humano membro da sua própria espécie.

E é exatamente neste ponto no qual racismo, capacitismo, xenofobia, homofobia, misoginia e outros tipos de preconceitos sociais novamente se encontram, isto é, quando deixamos de reconhecer o nosso próximo como nosso irmão ou como alguém que é parte de nós, ouem outras palavras, julgamos esta pessoa como alguém que não está no mesmo nível. Portanto, preconceito é tentar se diferenciar de alguém  ao mesmo tempo que se ridiculariza e minimiza o outro.

Por fim, a não ser que você seja adepto de  teorias eugenistas, abomináveis e anti-civilizatórias, tais como “minorias devem se curvar  ou então desaparecer”, o que precisa ser enfatizado em nossa sociedade atual é que mudar – ou consertar – um único indivíduo pode até parecer um caminho bem mais fácil, porém o que realmente precisa mudar é o pensamento coletivo e comunitário da nossa sociedade como um todo. Isto é, precisamos de um concerto social..

E sim, isso dá trabalho!

 

Weber Amaral



NOTA 1: Para os deficientes visuais que por ventura leram este texto e não conseguiramcaptar a pergunta feita no título (eu mesmo não seria capaz de entender senão tivesse sido eu a escrever). As duas palavras, apesar de ter a mesma fonética, estão com as grafias diferentes, uma com S e a outra com C, ou seja, quando falo do erro de tentar consertar (com S) um indivíduo, refiro-me à vontade de “tentararrumar algo que está estragado”, e quando cito o concerto (com C) social,subentende-se que proponho uma orquestração da sociedade em direção atentar entender e acolher aqueles que não se encaixam no suposto ideal normativo.

NOTA 2 : Assim como comentei no texto, racismo não entra no meu local de fala; por isso agradeço à amiga Lorena e ao amigo Fabrício, que fizeram a revisão moral deste ensaio. Ambos já apareceram por aqui, nas crônicas Do Tetris ao Super bowl e A casa, a cadeira e a inclusão, respectivamente.  


Comentários

  1. Vc é lindo, cara! ❤️ Texto lindo e importante! Um bjo pra vcs aí, se cuidem! 😘

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    1. Lindo é quem me chama. :-)
      Valeu Giu, também acho importante falarmos sobre preconceitos neste mundo atual que vivemos. nenhum assunto pode ser tabu.
      Abraços e se cuidem aí também.

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  2. Te amo mano. O único comentario que aponto é que a idéia de "minoria", na minha opiniao, vem de uma contruçao estrutural que tem como objetivo oprimir as diferencas e sustentar a normatividade - para manter a superioridade de acesso a privilegios sociais. Nao somos minorias, somos oprimidos em guetos onde podemos exercer nossa identidade de forma plena enquanto somos forçados a misturarnos e parecer normativos em estrutaras de convivencia democratica. No trabalho, na igreja, no espaços que congregam... somos melhor aceitos se suprimimos nossas diferenças. Mas nao sao as diferenças minoritarias. Sao generalizadas e as minorias sao as elites de status quo.

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    1. E como diria o Caetano parafraseando o Marx:

      Por quê forjar desprezo pelo vivos?
      E fomentar desejos reativos?
      Apaches, Punks, Existencialistas, Hippies, Beatniks
      De todos os tempos
      Uni-vos

      E da mesma musica:

      O fato é que há um istmo entre meu Deus e seus Deuses. E vice-versa.

      A gente tem que juntar os guetos, invadir os espaços, expressar a diversidade... até que se entenda que ser diferente é NORMAL e que nós temos que considerar sim todas as diferencas e parar de criar barreiras porque pensamos que sao minorias. Digo, eu acho.

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    2. Também te amo mano.. muitão
      Cara, eu concordo 200% com você. também acho que as ditas minorias ao se agruparem compõem de fato a sociedade. E acho que a tua colocação simboliza exatamente onde queremos e devemos chegar enquanto sociedade.
      Porém, infelizmente ainda estamos no passo no qual aqueles que não se encaixam neste ideal normativo precisam se reconhecer como tal e então se abrir para o mundo. Isto é, precisamos reforçar a representatividade artística, comunitária e política destes grupos minoritários ... até que enfim chegaremos no ponto que você coloca acima...
      E você está certo (Caetano também), temos muito mais semelhanças do que diferenças .. e é isso que o ser humano precisa aprender.. a valorizar o que nos une, e não o que nos difere.
      Abração

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  3. Muito bom Weber. Texto verdadeiro e ótimo para refletirmos!

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  4. Que preciosidade de texto, Binho!!! Se há alguma mudança que deva ser feita, e infelizmente há, é pra quem não a vive realidade de nenhuma "minoria".

    Dos 8 aos 10 anos de idade, quando a Kombi da APAE deixava a marion em casa ao meio-dia, eu já logo subia com ela de circular e a acompanhava a tarde toda na visiaudio. Então eu via e convivia com pessoas com mobilidade reduzida, deficiência visual, auditiva e outras...

    Contudo, eu não mudei A MIM no decorrer dos anos para possibilitar equidade a nenhuma daquelas pessoas dentro do que eu poderia e DEVERIA fazer.

    Me revolta ver que muitas empresas, quando por obrigação legal, tem de ter em seus quadros portadores de deficiência, pensam que isso é colocar corrimão, rampa e banheiro específico. E não é. É mais...

    Até quem um dia veio, sem agendar, uma cliente até mim precisando resolver uma questão. Ela e a filha. Ela era muda. A mocinha explicou pela mãe e as orientei.

    E assim que elas saíram, eu chorei.. Chorei pq ela sabia se comunicar. Eu é que estava errada em não saber a linguagem universal dela. Ela estava alí na completude de quem era. Eu não.

    Daí fui aprender.

    E aprendi um pouco mais com seu texto hoje.

    Você é ENORME!

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    1. Obrigado por compartilhar sua experiência marianna. sei que você (e muitos outros) tem demais pra colaborar com este debate, que é tão pobre dentro da nossa sociedade hoje em dia.
      Achei muito interessante e impactante a sua reação de humildade perante à sua cliente. Muito nobre da sua parte reconhecer que ëla sabia se comunicar, a falha estava em mim"
      Precisamos de mais atitudes assim nos nossos círculos.
      Abraços e obrigado

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