Expectativa versus realidade

Se fosse para tentar adivinhar um número, eu diria que já devo ter me consultado com aproximadamente uma centena de oftalmologistas durante toda a minha vida. Já passei inclusive por Hospitais Universitários, nos quais o professor colocava seus alunos em fila para também examinarem o meu caso. Desses muitos médicos que visitei, pelo menos metade deles me disse a seguinte frase após a checagem inicial: “É impressionante o fato de você ainda enxergar”. Ou seja, estou fazendo hora extra há muito tempo.

            Hoje, após três ininterruptas décadas de tratamento e, neste exato momento, me recuperando da 49ª cirurgia (contagem esta que pode não ser a correta), tenho uma enorme mistura de sentimentos dentro de mim, que vão desde uma imensurável gratidão por tudo que já vivi nestes anos, até inevitáveis revoltas e incompreensões por também ter que conviver com tudo isso.


            
Assim que me mudei para os Estados Unidos, em 2015, eu, obviamente, já comecei a frequentar várias consultórios oftalmológicos. Lembro-me então que, logo no início, um dos médicos me sugeriu visitar a Doutora S (omissão do nome proposital), pois ela seguramente era a melhor de sua área na região. Contudo, eu resolvi seguir com os médicos que havia inicialmente visitado. Somente após uns dois anos de tratamento aqui em terras texanas, eu então resolvi me consultar com a Doutora S, tendo em vista que um outro especialista também recomendou-a para mim.

            Agendei então uma consulta para uma sexta-feira pela tarde. Era um consultório afastado da cidade, que ficava em um centro médico de uma área suburbana muito arborizada e próspera (coisa fina). Cheguei no consultório da Doutora S e fui muito bem recebido pela secretária. Olhei para a parede da recepção e notei os inúmeros diplomas e prêmios da oftalmologista, ou seja, a sua fama mais uma vez se confirmava.

Após alguns minutos de espera, fui chamado para dentro e os técnicos que fazem os exames iniciais também se mostraram muito atenciosos comigo. Fiz vários testes naquele dia: tais como ultrassom, medição de espessura de córnea, contraste, campo visual e outros. Como de praxe, encheram meus olhos de colírio para dilatação e me puseram em uma salinha escura para aguardar que o remédio fizesse efeito. Após um tempo considerável, chamaram-me então para a sala na qual a Doutora S me atenderia.

Ela entrou na sala com a sua assistente, cumprimentou a mim e à Marida de forma muito educada e já foi olhando os vários exames que eu havia feito. Ela analisou todo aquele conteúdo com cuidado e me pediu para que eu tentasse descrever o meu histórico. Confesso que contar a minha trajetória clínica em inglês é sempre um belo desafio para mim, mas ela, em especial, queria saber ainda mais detalhes do meu longo tratamento que os demais médicos daqui. Mesmo assim, ela elogiou a minha memória e agradeceu o quão minucioso eu consegui ser. Ela então me examinou por um bom tempo, usou diferentes lentes, luzes e outros aparatos tecnológicos para ter um melhor diagnóstico possível do meu caso.

Ao fim do exame, ela descreveu, de maneira bem didática, o que havia visto e constatou um parecer que não se diferenciava em nada de muitos outros diagnósticos que eu recebera anteriormente. Para concluir a nossa conversa, ela disse a frase que resume a minha visita ao seu consultório naquela tarde:

“Hang in there!” - que em português seria “Aguente firme!”.

           

Eu, logicamente, quero ser tratado pelos melhores médicos, tanto que, por mais que a Doutora S não tenha a cura milagrosa para a minha doença, eu continuo frequentando o seu consultório periodicamente. Mas, casos como o acima, ou seja, aqueles nos quais as altas expectativas se confrontam com realidade já me aconteceram aos montes - e aqui estou somente falando em medicina tradicional, ou seja, nem vou tocar no assunto espiritual ou religioso hoje.

Eu penso em elaborar mais textos sobre como eu lido com essa pluralidade de opiniões médicas que, em muitas vezes, não se convergem, mas o que eu gostaria mesmo de enfatizar neste texto aqui é que, por mais que a realidade nem sempre é o que temos de mais agradável e esperançoso, ela é o único caminho que possuímos. Ou seja, não adianta fugirmos dela.

 

Weber Amaral


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Comentários

  1. Binho, você é muito forte, te admiro muito.

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  2. Mais uma vez repito " sou sua fã: e grata a Deus por te amigo como você!!

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    1. Ounn.. que bonitinho.. a gratidão é toda minha.. beijos

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  3. Força filhão, estamos juntos nessa luta. Sei como se sente, mesmo com situação diferente. Me orgulho de ter sua amizade ❤️😍. Abraços Paulino

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    1. Ufa.. ainda bem que você colocou seu nome..
      hehe..
      Obrigado filhão por me desejar força.. e tbm por me inspirar com a sua..

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  4. Amigo, gracias por compartir tu historia con nosotros

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    1. Gracias a ti por leer mi historia y por tambien por haber compartido preciosos momientos conmigo.. Cheers.

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  5. Realidade × expectativa.
    Nossa realidade certamente deve ser encarada com bravura e isso você faz com excelência, nossas expectativas não devem jamais se limitar a esse mundo terreno e pra isso mando-lhe um concelho amigo, Guarde teu coração, pois dele procede as fontes de vida e sua mente!, ah, leve-a cativa ao Senhor, certamente Ele acalentará seu coração e te usará como instrumento em sua mãos. Deus abençoe sua vida Binhão. #tmj

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    1. De uma forma ou de outra, eu creio que a nossa realidade tem q ser a base da nossa expectativa - existencialismo na veia.
      Olhar o plano divino e ter esperança é perfeitamente aceitável. mas se a vontade vem dos céus, isso não está sob o nosso controle. Ou seja, trabalhamos com o que temos.
      Abraços meu amigo.

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  6. Você é e sempre foi um guerreiro! Continue firme!

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    1. Obrigado Edvana... Sim, seguimos firme aqui. E andando pra frente, que é o único jeito que dá.. beijos

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  7. Aguenta firme, Binho. Vc e Jonny, minha dupla Cosme e Damião. Amo vcs! Abraço da Marilu

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